Os alimentos fazem mais do que saciar a fome. Também moldam a comunidade de micróbios que habita no intestino e influenciam a forma como o organismo reage ao stress.
O fruto de Aronia melanocarpa tem vindo a destacar-se como alimento benéfico para a saúde devido ao seu elevado teor de polifenóis e à actividade antioxidante associada. Alimentos ricos em antioxidantes, como o fruto de Aronia, podem trazer enormes benefícios para a saúde.
Os cientistas procuraram perceber se um sumo rico em polifenóis, produzido a partir de bagas de arónia-preta (Aronia melanocarpa), conseguiria ajudar um ecossistema intestinal semelhante ao humano e o metabolismo do hospedeiro a manterem-se estáveis perante o desafio inflamatório de uma dieta ocidental rica em gordura.
Para isso, recorreram a um modelo controlado com um microbioma intestinal humano. Este desenho permitiu testar relações de causa e efeito, controlando rigorosamente variáveis como a alimentação, o calendário e a recolha de amostras.
A questão central era simples: este sumo de bagas poderia favorecer uma resposta mais saudável quando a alimentação passava a ser rica em gordura?
Sumo de Aronia e saúde humana
O estudo avaliou se a administração de sumo de Aronia rico em polifenóis a animais portadores de um microbioma intestinal humano poderia apoiar a comunidade intestinal e o metabolismo do hospedeiro durante um desafio alimentar rico em gordura.
A análise incidiu tanto na composição microbiana como nos milhares de pequenas moléculas que circulam no sangue e indicam o estado do organismo.
Os investigadores utilizaram ratinhos livres de germes, colonizados com micróbios intestinais provenientes de dadores adultos avaliados previamente.
Os dois dadores tinham medidas corporais semelhantes, mas apresentavam diferentes níveis de inflamação: um tinha um perfil de baixa inflamação e o outro um perfil de elevada inflamação, tanto em repouso como após uma refeição rica em gordura.
A equipa transplantou estes micróbios para ratinhos livres de germes e criou uma segunda geração para confirmar que o microbioma humano se tinha estabelecido e permanecia estável.
Os ratinhos desenvolveram duas comunidades intestinais distintas, correspondentes aos respectivos dadores humanos, e a química do seu sangue também se diferenciava em padrões de baixa e elevada inflamação antes de qualquer tratamento.
Como foi realizado o estudo
O ensaio de alimentação decorreu durante oito semanas. Os ratinhos beberam sumo de Aronia ou uma bebida de controlo com teor de açúcar equivalente.
Durante duas semanas, receberam ração normal juntamente com a bebida que lhes tinha sido atribuída. Nas seis semanas seguintes, passaram para uma dieta rica em gordura, mantendo a mesma bebida.
O desenho experimental assegurou uma ingestão de açúcar comparável entre os grupos, de modo a isolar o efeito dos polifenóis.
A equipa recolheu amostras de fezes para acompanhar quais as bactérias que aumentavam ou diminuíam e colheu sangue para caracterizar milhares de metabolitos através de cromatografia líquida–espectrometria de massa (LC-MS).
Os grupos bacterianos foram identificados por sequenciação do gene 16S rRNA, um método que lê marcadores genéticos curtos para determinar os membros e a abundância da comunidade.
O sumo de Aronia altera o microbioma
Nas duas primeiras semanas com ração normal, o sumo de Aronia provocou ligeiras alterações na comunidade intestinal. Os ratinhos que beberam o sumo registaram um pequeno aumento da riqueza global de espécies, também designada diversidade alfa.
Alguns grupos bacterianos tornaram-se mais abundantes, incluindo membros da família Eggerthellaceae, conhecida por transformar polifenóis vegetais em compostos mais pequenos que o hospedeiro pode utilizar.
A dieta rica em gordura levou depois a uma reorganização do microbioma intestinal, uma alteração que os cientistas descrevem como uma mudança na diversidade beta.
Os metabolitos sanguíneos também seguiram novas trajectórias sob a carga elevada de gordura. O sumo de Aronia atenuou algumas dessas alterações.
Os ratinhos que consumiram o sumo revelaram maior resistência à perturbação provocada pela dieta rica em gordura do que os que receberam a bebida de controlo com teor de açúcar equivalente.
Ainda assim, o microbioma inicial continuou a ser determinante: os animais portadores do microbioma do dador com baixa inflamação mantiveram-se mais resilientes do que aqueles que transportavam o microbioma do dador com elevada inflamação.
Indicadores no sangue
A composição química do sangue acrescentou outra camada de evidência. O sumo de Aronia foi associado a níveis mais elevados de fosfatidilcolinas e de lípidos relacionados.
Estas moléculas constituem componentes essenciais das membranas celulares, incluindo o revestimento do intestino, que cria uma barreira entre o conteúdo intestinal e a corrente sanguínea.
Uma composição saudável das membranas favorece uma barreira mais eficaz e reduz a probabilidade de componentes bacterianos entrarem na circulação e desencadearem inflamação.
Ao fim de oito semanas, os ratinhos que beberam sumo de Aronia também apresentavam níveis inferiores de N-óxido de trimetilamina (TMAO), em comparação com os controlos. O TMAO forma-se quando os micróbios intestinais processam nutrientes como a colina e o fígado converte os subprodutos.
Em conjunto, os níveis mais baixos de TMAO e os níveis mais altos de fosfatidilcolinas sugerem uma alteração no processamento dos lípidos compatível com uma função de barreira mais forte.
Micróbios alimentares e sumo de Aronia
Nos ratinhos portadores do microbioma de baixa inflamação, o sumo de Aronia aumentou o ácido indolacrílico, uma molécula produzida por bactérias específicas a partir do aminoácido triptofano.
Estudos associam o ácido indolacrílico a actividade antioxidante, sinalização anti-inflamatória e apoio à integridade da barreira intestinal.
Nem todos os microbiomas conseguem produzir esta molécula; apenas determinadas espécies possuem as enzimas necessárias para formar este composto. O benefício dependia dos micróbios presentes no intestino desde o início.
Sumo de Aronia e futuros estudos em humanos
Os dados enquadram-se numa imagem clara. Este trabalho foi realizado num modelo animal controlado com microbiomas de dois dadores humanos, o que ajuda a analisar mecanismos, mas não representa toda a diversidade observada nas pessoas.
O estudo não apresenta o sumo de Aronia como uma solução universal. O microbioma de cada pessoa ajuda a determinar como os alimentos a afectam.
As plantas ricas em polifenóis - bagas como a Aronia e os mirtilos, vegetais coloridos e chás - oferecem mais do que vitaminas. Fornecem também moléculas complexas que determinadas bactérias intestinais conseguem transformar em compostos úteis.
Um microbioma mais diverso e equilibrado parece lidar melhor com o stress alimentar, como demonstrado aqui pela resposta do grupo de baixa inflamação.
Embora este estudo não estabeleça uma dose de sumo de Aronia para humanos, reforça uma ideia mais ampla da biologia e da nutrição: a saúde resulta da acção conjunta de nutrientes e micróbios, sobretudo quando a dieta é rica em gordura.
O estudo completo foi publicado na revista Frontiers in Nutrition.






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