O óleo de soja tornou-se muito mais presente na alimentação nas últimas décadas: consumimos agora cerca de 1.000 vezes mais do que há um século, tanto como óleo de cozinha como ingrediente de alimentos processados. Os investigadores têm sérias preocupações sobre o impacto que esta tendência pode ter na saúde.
Um estudo publicado no Journal of Lipid Research analisou em particular o ácido linoleico, uma gordura essencial e o principal componente do óleo de soja, bem como a sua possível relação com a obesidade e com alterações no metabolismo do organismo, ou seja, nos processos de produção de energia.
Óleo de soja, ácido linoleico e obesidade
Na investigação, conduzida por uma equipa da Universidade da Califórnia, Riverside (UCR), grupos de ratinhos receberam, durante vários meses, uma dieta com óleo de soja, rica em ácido linoleico, uma dieta rica em gordura de óleo de coco, com pouco ácido linoleico, ou uma dieta pobre em gordura.
Havia, contudo, uma particularidade: alguns dos ratinhos tinham sido geneticamente modificados para produzirem uma forma diferente de uma proteína do fígado essencial para o processamento de gorduras.
Como era esperado, os ratinhos normais submetidos à dieta rica em óleo de soja aumentaram de peso. Já os que apresentavam a alteração genética não engordaram, apesar de seguirem exactamente a mesma dieta. Trata-se de uma evidência forte de que a proteína hepática HNF4α é fundamental para a ligação entre o óleo de soja e a obesidade.
"Este poderá ser o primeiro passo para compreender porque é que algumas pessoas ganham peso mais facilmente do que outras com uma alimentação rica em óleo de soja", afirma a cientista biomédica Sonia Deol, da UCR.
As variações da proteína HNF4α afectam centenas de genes associados ao metabolismo das gorduras, incluindo a forma como o ácido linoleico é convertido nas chamadas oxilipinas. Estas moléculas activas são produzidas à medida que o organismo processa gorduras.
O papel das oxilipinas no metabolismo das gorduras
Os dados indicam agora que estas oxilipinas são provavelmente decisivas para a acumulação de gordura, embora os mecanismos exactos ainda não sejam claros. Os cientistas estudam este tema há mais de uma década, desde que uma investigação anterior associou o óleo de soja ao aumento de peso.
"Desde o nosso estudo de 2015 que sabemos que o óleo de soja é mais obesogénico do que o óleo de coco", diz a bióloga celular Frances Sladek, da UCR. "Mas agora temos a evidência mais clara até à data de que não é o óleo em si, nem sequer o ácido linoleico. É naquilo em que a gordura se transforma dentro do organismo."
Os investigadores verificaram também que os ratinhos alimentados com uma dieta pobre em gordura apresentavam níveis de oxilipinas semelhantes aos dos que desenvolveram obesidade com a dieta de óleo de soja. Parece haver algo na combinação destas moléculas com uma alimentação rica em gordura que faz a diferença.
Além disso, a versão da proteína HNF4α introduzida pelos investigadores em alguns ratinhos, que os protegeu contra a obesidade, pode tornar-se dominante no fígado humano durante períodos de doença crónica ou de stress metabólico.
Estas conclusões fornecem pistas úteis para estudos futuros. Os autores consideram que alterações no funcionamento das mitocôndrias, as centrais energéticas das células, também podem estar envolvidas, mas esta hipótese exige mais investigação.
Consumo de óleo de soja e saúde pública
Os investigadores ainda não têm planos para ensaios em humanos, mas consideram que o rápido aumento do consumo de óleo de soja e das gorduras relacionadas está a revelar-se difícil de gerir para o organismo.
"O óleo de soja não é intrinsecamente mau, mas as quantidades que consumimos estão a activar vias que o nosso organismo não evoluiu para processar", afirma Deol.
Sabe-se que a obesidade é um problema global em crescimento, com consequências em muitas outras áreas da saúde. Apesar dos avanços nos tratamentos, como os medicamentos GLP-1, continuam a ser muito necessários novos fármacos e métodos de prevenção.
Compreender melhor de que modo os alimentos comuns da dieta influenciam a acumulação de gordura aproxima-nos desse objectivo, e a equipa responsável pelo estudo quer aumentar a consciencialização sobre estas ligações.
"Passaram-se 100 anos desde a primeira ligação observada entre o tabaco de mascar e o cancro até à introdução de avisos nos maços de cigarros", diz Sladek.
"Esperamos que a sociedade não demore tanto tempo a reconhecer a ligação entre o consumo excessivo de óleo de soja e efeitos negativos na saúde."
A investigação foi publicada no Journal of Lipid Research.
Este artigo foi verificado quanto aos factos por Fiona MacDonald e editado por Fiona MacDonald. Embora nos orgulhemos do nosso processo, somos apenas humanos. Se detectar algum erro, informe-nos.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário