Ed Waldner tinha 55 anos quando reparou que começara a arrastar os pés. Inicialmente, era algo discreto, fácil de atribuir às pequenas mudanças que surgem com a idade.
Depois instalou-se um cansaço esmagador que o repouso parecia nunca aliviar. Uma ida às urgências revelou um tumor cerebral.
Tratava-se de um glioblastoma, uma das formas de cancro mais mortais. Apesar de décadas de investigação, o tratamento padrão quase não mudou desde os anos 1970.
Uma vitamina conhecida: niacina ou vitamina B3
A vitamina em estudo é a niacina, também designada vitamina B3. É utilizada há anos no controlo do colesterol e está presente em cereais enriquecidos e suplementos comuns.
Ninguém a associa habitualmente a um medicamento contra o cancro. A proposta de a testar nasceu do trabalho desenvolvido no laboratório do Dr. V. Wee Yong, da Universidade de Calgary. Yong investiga a forma como o sistema imunitário interage com o cérebro.
Há vários anos, o seu grupo avaliou mais de mil compostos para identificar um que pudesse activar células imunitárias pouco activas. A niacina destacou-se.
As primeiras experiências foram realizadas em ratinhos com tumores cerebrais, e os animais que receberam niacina viveram mais tempo.
O resultado foi suficientemente promissor para justificar a passagem lenta e cuidadosa para estudos em pessoas, precisamente o objectivo do novo estudo.
Como o tumor se esconde
O glioblastoma é perigoso, em parte, pela maneira como lida com as defesas do organismo.
Em condições normais, um conjunto de células imunitárias chamado células mielóides, incluindo células móveis que patrulham à procura de ameaças, deslocar-se-ia em massa para atacar um tumor. No interior de um glioblastoma, essas células tornam-se inactivas.
Na prática, o tumor desliga-as, transformando potenciais atacantes em simples espectadoras.
Esta supressão ajuda a explicar por que motivo o cancro resiste a tratamentos eficazes noutras zonas do corpo. Existe um exército imunitário, mas este não entra em acção.
A niacina parece voltar a ligar esse interruptor. Nos trabalhos laboratoriais e em animais anteriores, a exposição destas células silenciadas à vitamina restaurou a capacidade de travarem o crescimento tumoral.
Os efeitos dependiam de um sinal imunitário específico que as células voltavam a produzir. Quando esse sinal é removido, o benefício desaparece.
Testar a niacina em pessoas
O ensaio clínico combinou niacina de libertação controlada com a radioterapia e a quimioterapia habituais em adultos com diagnóstico recente da doença.
A primeira tarefa consistiu em avaliar a segurança. Os investigadores aumentaram gradualmente a dose para determinar a quantidade máxima que os doentes conseguiam tolerar antes de os efeitos secundários se tornarem problemáticos.
Esse limite foi de 2.000 miligramas por dia. A queixa mais frequente foi rubor - a vermelhidão e sensação de calor na pele pelas quais a niacina é conhecida -, geralmente ligeiro.
Dosagem e efeitos secundários
Com doses mais elevadas, dois doentes tiveram efeitos secundários hematológicos mais graves, o que ajuda a explicar a dose escolhida pela equipa.
A Dra. Gloria Roldan Urgoiti, especialista em cancro cerebral na universidade, foi clara sobre a razão pela qual a prudência orienta cada etapa.
A sobrevivência neste cancro quase não avançou em 20 anos, pelo que qualquer nova opção merece ser analisada, mas apenas sob vigilância rigorosa.
Doses elevadas de vitaminas não são inofensivas, e os investigadores sublinham que isto não deve ser experimentado em casa.
Um número surpreendente
A niacina só justificaria investigação adicional se aumentasse em pelo menos 20 por cento um indicador essencial de sobrevivência face a estudos anteriores. Se não atingisse esse valor, o estudo seria interrompido.
O indicador em causa era a proporção de doentes cujo cancro não apresentava crescimento ou disseminação visível ao fim de seis meses.
Em estudos anteriores sobre glioblastoma, cerca de metade dos doentes ainda tinha exames estáveis nessa fase. A meta a ultrapassar era relevante, não meramente simbólica.
Quando a equipa analisou os resultados dos primeiros 24 doentes, cerca de 82 por cento não apresentava sinais de progressão do cancro aos seis meses.
Isto corresponde a um aumento de 28 por cento em relação ao valor de referência histórico, ultrapassando com margem o limiar definido.
Numa doença tão resistente, uma diferença desta dimensão é o tipo de sinal inicial que permite dar continuidade a um ensaio, em vez de o encerrar.
O que continua a ser novo
Vários aspectos já eram conhecidos à partida. O trabalho laboratorial tinha demonstrado que a niacina podia reactivar células imunitárias inactivas, e os ratinhos tratados com ela viviam mais tempo.
O que ainda não tinha sido medido era se acrescentar a vitamina ao tratamento padrão poderia produzir uma diferença em doentes recém-diagnosticados num contexto clínico real.
Esta análise intercalar fornece a primeira evidência em doentes de que isso poderá acontecer. A descoberta é precoce e resulta de um único grupo de doentes, sem um grupo de comparação directo.
Por isso, a equipa apoia-se nos valores de referência históricos, e não numa comparação directa. Mesmo com estas limitações, uma diferença de 28 pontos é difícil de ignorar. Há também uma razão prática para este interesse.
A niacina é barata, amplamente disponível e já aprovada para uso humano, o que significa que um resultado positivo poderia chegar aos doentes mais depressa do que um medicamento inteiramente novo desenvolvido de raiz.
Estudos no horizonte
Em doentes vivos, a adição de niacina ao regime padrão foi associada a uma taxa marcadamente superior de controlo do cancro durante seis meses.
Isto transforma a vitamina de uma história laboratorial interessante numa abordagem testada onde realmente importa. Se os resultados em maior escala se confirmarem, o atractivo é evidente.
Um suplemento seguro e barato que ajude as defesas do próprio organismo a atacar um tumor seria uma rara boa notícia para um cancro que frustra os médicos há uma geração.
Também poderia orientar a investigação de outros cancros para as mesmas células imunitárias que a niacina parece reactivar, células que outros tipos de tumores silenciam de forma semelhante.
A equipa continua a recrutar participantes e pretende chegar a 48 doentes antes de uma análise final, prevista para o final de 2026 ou o início de 2027.
Até lá, a mensagem mantém-se prudente: números encorajadores, mais trabalho pela frente e uma vitamina conhecida a merecer uma segunda análise séria.






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