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O regresso do peixe dos pobres à mesa brasileira

Mulher a analisar peixe fresco numa peixaria com bancadas de gelo e peixe, homem ao fundo.
Neste artigo
  1. O regresso de um peixe proibido que nunca desapareceu verdadeiramente
  2. Como um peixe controverso se tornou numa oportunidade de negócio
  3. Quem ganha realmente quando o peixe dos pobres se torna popular?

Numa tarde abafada no Recife, o mercado cheira a mar e a óleo de fritura. Uma mulher de vestido florido inclina-se sobre um balcão de plástico e escolhe entre montes de filetes finos e pálidos. «Isto voltou mesmo a ser seguro?», pergunta ao vendedor, em tom meio brincalhão, meio sério. O homem encolhe os ombros, toca no peixe com a faca e responde como se repetisse um lema: «Este é o peixe do povo. Sempre foi e sempre será.» Um rapaz atrás dela revira os olhos. Já viu os vídeos no TikTok, ouviu os médicos e acompanhou os memes que lhe chamam «peixe da morte».

À volta deles, a fila vai aumentando em silêncio.

Porque este antigo peixe dos pobres voltou à mesa. E ninguém parece estar de acordo sobre se isso representa uma vitória ou uma armadilha.

O regresso de um peixe proibido que nunca desapareceu verdadeiramente

Nas décadas de 1990 e 2000, o «peixe-serra» - cação, tubarão, peixe-cão e várias espécies semelhantes vendidas sob um único nome barato - era o peixe da sobrevivência em muitos bairros brasileiros. Tinha espinhas, um sabor intenso e, por vezes, um aspeto escuro. Mas era económico, rendia na frigideira e alimentava cinco ou seis pessoas. Depois, começaram a surgir estudos que associavam a carne de tubarão a níveis elevados de mercúrio. As reportagens mostravam grávidas aconselhadas a evitá-la, títulos alarmantes sobre lesões cerebrais, riscos a longo prazo e contaminação. De um dia para o outro, o peixe do povo passou a ser uma espécie de vilão culinário.

Agora, esse mesmo peixe regressa às embalagens dos supermercados. Surge um pouco mais limpo, um pouco mais caro, envolvido em plástico e acompanhado de códigos QR.

Na periferia de Salvador, Dona Celeste, de 63 anos, ainda lhe chama pelo nome antigo: «o bife dos pobres». Recorda o dia exato em que a filha chegou da escola a dizer que a professora lhes proibira de o comer. «Chorei na cozinha», ri-se, «porque o que é que eu ia fazer para o jantar?» A família trocou-o por nuggets de frango congelados e enchidos processados, que na altura pareciam «modernos».

Hoje, Celeste vê nutricionistas na televisão a discutir o mesmo peixe e abana a cabeça. «Um diz que é veneno. Outro diz que é proteína. Entretanto, a minha pensão compra metade do que comprava antes.»

A polémica nasce do choque entre verdades diferentes. O tubarão e outros grandes peixes predadores podem acumular metais pesados, como o mercúrio, sobretudo em águas poluídas. O perigo existe e, para grávidas e crianças pequenas, é sério. Ao mesmo tempo, muitos dos alimentos alternativos promovidos junto de famílias com baixos rendimentos são ultraprocessados, salgados, açucarados e também estão longe de ser um sonho de saúde. Quando especialistas discutem na televisão que certos peixes nunca devem ser consumidos, falam muitas vezes a partir de uma realidade em que salmão, bacalhau e tilápia fresca são escolhas acessíveis. Para milhões de brasileiros, não são. Por isso, a disputa em torno deste peixe não se resume à toxicologia. É também uma questão de classe.

Como um peixe controverso se tornou numa oportunidade de negócio

Nos bastidores, este regresso segue uma estratégia. Primeiro: dar um nome novo ao peixe antigo. Algumas marcas deixaram de usar «cação» ou «tubarão» no rótulo e passaram a optar por designações genéricas, como «filete de peixe branco», ou por nomes comerciais inventados que soam inofensivos e modernos. Segundo: congelação industrial, vidragem, cortes uniformes e embalagens limpas. O peixe que antes era vendido inteiro sobre gelo, com a cabeça e os dentes expostos, passou a parecer-se com qualquer filete anónimo do corredor dos congelados.

Terceiro: conteúdos. Receitas no Instagram, publicações patrocinadas com influenciadores de fitness e sugestões de «jantares leves» que incluem discretamente a mesma espécie antes demonizada.

O erro que muitos cometemos é imaginar que, se regressou ao supermercado, então tudo terá ficado resolvido: processos judiciais arquivados, ciência atualizada, águas descontaminadas. A realidade é mais confusa. Grupos ambientalistas continuam a denunciar a pesca ilegal de tubarões ao longo da costa brasileira. Investigadores continuam a encontrar mercúrio acima dos níveis recomendados em algumas amostras. As mesmas famílias que foram aconselhadas a evitar este peixe há dez anos voltam agora a ser levadas a comprá-lo por etiquetas de desconto e blogues de receitas.

Todos já vivemos aquele momento em que o preço na caixa fala mais alto do que o nutricionista na televisão.

O debate transformou-se numa espécie de novela alimentar nacional. De um lado, especialistas em nutrição defendem que o consumo ocasional por adultos saudáveis é controlável, desde que se varie o peixe consumido e se evite dá-lo às crianças. Do outro, ambientalistas e ativistas de saúde pública argumentam que normalizar o consumo de carne de tubarão recompensa uma cadeia de pesca destrutiva, que atinge com maior força os ecossistemas marinhos e as comunidades costeiras.

«As pessoas perguntam se o peixe é seguro», afirma uma nutricionista de São Paulo. «A minha primeira pergunta é: em comparação com quê? Com uma alimentação diária de noodles instantâneos? Com a fome? No Brasil, o risco nunca é abstrato. Está sempre no prato de alguém.»

  • Não ignore os rótulos: o nome da espécie, a origem e o método de captura dão pistas essenciais sobre saúde e sustentabilidade.
  • Desconfie de «peixe branco» muito barato e demasiado genérico, vendido sem qualquer identificação da espécie.
  • Pergunte ao seu peixeiro local o que está realmente a comprar; respostas vagas já são, por si só, uma resposta.
  • Sempre que possível, alterne os tipos de peixe, sobretudo no caso de crianças e grávidas.
  • Lembre-se de que feijão, ovos e produtos sazonais continuam a ser aliados importantes de proteína quando o peixe levanta dúvidas.

Quem ganha realmente quando o peixe dos pobres se torna popular?

Há uma ironia amarga em ver um peixe durante tanto tempo associado à pobreza ser subitamente reposicionado como proteína moderna e «fit». Nas favelas costeiras, pescadores mais velhos contam que vendiam carne de tubarão por quase nada, enquanto as barbatanas e os melhores cortes destinados à exportação rendiam dinheiro a sério a intermediários e exportadores. Agora que a classe média brasileira procura qualquer proteína que não seja carne vermelha, a mesma cadeia de abastecimento encontra uma nova oportunidade no mercado interno. O peixe sai da banca ao ar livre e entra no hipermercado com ar condicionado. As margens acompanham essa mudança.

E as famílias que antes dependiam dele ficam espremidas entre a carteira, as memórias e os receios.

Sejamos honestos: ninguém lê todos os relatórios científicos antes de decidir o que vai fritar para o jantar. A maioria das pessoas reage a três fatores - preço, hábito e confiança. Quando os alertas de saúde quebram essa confiança, ela não se recupera facilmente. Muitas avós continuam a olhar de lado para a banca do peixe, mesmo quando os médicos dizem que uma dose de vez em quando não é problemática. Os compradores mais jovens, que se apoiam nas redes sociais em vez da tradição familiar, deslizam por opiniões extremadas: «peixe tóxico, nunca mais» contra «notícias falsas, coma sem medo».

Entre estes extremos, uma maioria silenciosa faz aquilo que os brasileiros sempre fizeram em tempos de crise: improvisa.

A verdade simples é que as polémicas alimentares raramente ficam apenas no prato; atingem a identidade, a dignidade e a decisão sobre quem pode definir o que é «bom» ou «mau» para comer. Quando um antigo «peixe dos pobres» passa de repente a ser defendido por campanhas financiadas pela indústria e por blogues gourmet, muitos brasileiros mais velhos sentem que a história está a ser reescrita sem eles. Entretanto, os ecossistemas costeiros pagam o preço da pressão crescente sobre as populações de tubarões, um desastre lento que não cabe facilmente num segmento televisivo de 30 segundos.

O regresso deste peixe levanta perguntas incómodas.

Quem pode lucrar com o perigo quando esse perigo é apresentado como «risco aceitável»? E quem acaba a comer aquilo que estiver em promoção às 20h00, quando o mercado fecha?

Ponto essencial Detalhe Valor para o leitor
A polémica tem várias camadas O risco para a saúde, os danos ambientais e a desigualdade de classe estão todos presentes no mesmo filete Ajuda a interpretar para lá de manchetes simplistas sobre alimentos «bons» ou «maus»
Os rótulos e as perguntas são importantes O nome da espécie, a origem e respostas honestas dos vendedores revelam o que está realmente a comprar Oferece instrumentos práticos para proteger a família sem alarmismo
Continua a ter margem de decisão Combinar proteínas diferentes, moderar a frequência e variar os tipos de peixe reduz o risco Mostra pequenas mudanças realistas que se adaptam verdadeiramente a um orçamento apertado

Perguntas frequentes:

  • Pergunta 1: Este «peixe dos pobres» é realmente perigoso para comer?
  • Pergunta 2: Com que frequência posso servir este peixe à minha família em segurança?
  • Pergunta 3: Há sinais claros na embalagem de que se trata de tubarão ou de uma espécie semelhante?
  • Pergunta 4: Quais são algumas alternativas acessíveis se quiser reduzir o consumo?
  • Pergunta 5: Evitar este peixe ajuda realmente o ambiente ou é apenas um gesto simbólico?

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Miguel Ângelo Figueiredo

Miguel Ângelo Figueiredo é enólogo e consultor especializado em divinograo, com experiência na análise de castas, terroirs e processos de vinificação. Dedica-se à divulgação da cultura vínica portuguesa e acompanha de perto as tendências, produtores e práticas sustentáveis associadas ao universo do divinograo.

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