Ninguém sabe o que sonham os cogumelos enquanto dormem, quando as suas extensas redes miceliais cintilam e pulsam através de respostas electroquímicas semelhantes às das nossas próprias células cerebrais.
Mas, se lhes fosse dada essa oportunidade, o que poderia fazer esta rede de impulsos com um breve instante de liberdade?
Uma equipa interdisciplinar de investigadores da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, e da Universidade de Florença, em Itália, procurou recentemente descobrir a resposta. Para isso, colocou uma cultura da espécie comestível Pleurotus eryngii - também conhecida como cogumelo-rei-ostra - a comandar dois veículos capazes de se contraírem e deslocarem sobre uma superfície plana.
Numa série de experiências, os cientistas demonstraram que a actividade electrofisiológica do cogumelo podia converter sinais do ambiente em instruções. Essas instruções poderiam depois orientar os movimentos de um dispositivo mecânico.
Cogumelo-rei-ostra integrado em robôs bio-híbridos
"Ao fazer crescer micélio para dentro da electrónica de um robô, conseguimos permitir que a máquina bio-híbrida detectasse o ambiente e lhe respondesse", afirmou Rob Shepherd, investigador sénior e cientista de materiais em Cornell, aquando da publicação do estudo, em Agosto.
A combinação de matéria viva e máquinas não é novidade. A evolução dispôs de centenas de milhões de anos para aperfeiçoar mecanismos orgânicos, pelo que é natural recorrermos à biologia para encontrar atalhos na criação de dispositivos resistentes, capazes de detectar, processar informação e mover-se da forma pretendida.
Ainda assim, o reino Fungi continua a ser uma espécie de reserva inexplorada para a tecnologia cibernética.
Fáceis de cultivar, com exigências relativamente simples e uma tendência para sobreviver em condições nas quais muitos outros organismos teriam dificuldades, os bolores e os cogumelos podem oferecer aos engenheiros vários componentes vivos e robustos para praticamente qualquer necessidade sensorial ou mesmo computacional.
Frequentemente invisíveis, as redes de filamentos fúngicos finos reagem às alterações à sua volta enquanto avançam pelo solo à procura de recursos.
Diversas espécies produzem inclusive actividade transmembranar semelhante às nossas respostas neuronais, o que oferece aos investigadores uma potencial forma de escutar as suas conversas secretas.
Sinais eléctricos de fungos comandam veículos
Ao aplicarem algoritmos baseados na electrofisiologia extracelular dos micélios de P. eryngii e ao encaminharem o resultado para uma unidade de microcontrolador, os investigadores utilizaram picos de actividade desencadeados por um estímulo - neste caso, luz ultravioleta - para accionar respostas mecânicas em dois tipos distintos de dispositivos móveis.
Em experiências controladas, a equipa recorreu aos sinais de uma cultura fúngica para orientar os movimentos de um robô macio com cinco membros e de um veículo autónomo de quatro rodas, sem ligação por cabo.
Os investigadores conseguiram influenciar e sobrepor-se aos impulsos «naturais» produzidos pelos fungos, demonstrando que as capacidades sensoriais deste sistema podem ser aproveitadas para alcançar um objectivo específico.
"Este tipo de projecto não consiste apenas em controlar um robô", disse Anand Mishra, especialista em biorrobótica da Cornell.
"Trata-se também de estabelecer uma verdadeira ligação com o sistema vivo. Porque, quando se ouve o sinal, também se percebe o que está a acontecer. Talvez esse sinal resulte de algum tipo de stress. Portanto, estamos a observar a resposta física, porque não conseguimos visualizar esses sinais, mas o robô está a torná-los visíveis."
Por mais desajeitado que o «robocogumelo» possa parecer, o verdadeiro valor deste sistema poderá um dia revelar-se em configurações mecânicas mais simples. Estas poderiam interpretar alterações complexas nos sinais ambientais para fornecer quantidades precisas de nutrientes ou pesticidas ao solo, ajustar automaticamente as respostas ao aumento dos níveis de poluentes ou até reagir a mudanças no nosso próprio corpo.
Há uma sabedoria mais profunda nos sussurros dos cogumelos que apenas começamos a compreender. Se lhes for dada uma oportunidade, talvez um dia nos digam até com o que sonham.
Esta investigação foi publicada na revista Science Robotics.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em Setembro de 2024.






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